segunda-feira, 15 de junho de 2026

Uma visita inesperada


Deixei-me ficar na cama mais tempo do que costumava. 
Levantei ainda com certa preguiça. Dei alguns passos indecisos pela casa e abri as portas de duas bandas. 

Estava na casa dos Medeiros. Dirigi-me à cozinha de onde vinha a claridade, que me chamava à vida.

Pelo desalinhamento das portas entre sala e cozinha, vi, ao longe, mãos que se movimentavam e


 organizavam roupas que estavam espalhadas pela enorme mesa de refeições.

Curiosa para saber quem seria a minha companhia, apressei o passo e, um pouco antes de descer o degrau da cozinha, vi a luz do sol que atravessa os espaços vazios dos cobogós da parede e pairavam sobre a mesa, ressaltando ainda mais o colorido das roupas. Paralisei diante da cena que meus olhos não acreditavam ver.

—Dona Hilda?! O que a senhora está fazendo aqui?

—Veraldinho foi me buscar hoje, bem cedo — disse ela sem nem desviar o olhar da roupa que esticava sobre a tábua.

—Mulher, a senhora não pode ficar de pé, muito menos passar roupas. Meu Deus do céu! A senhora saiu do hospital ontem. Ontem! — fui logo puxando as roupas, na tentativa de tirá-las do alcance dela e tentei prosseguir — Como é que ...

—Eu já tô boa! Tô boa, Dete! Não sei ficar sem fazer nada — disse minha sogra exibindo um sorrisinho irônico e ,na intenção de me convencer, continuou — Você tava dormindo, aí fui procurar o que fazer, né?

Sem encontrar palavras para rebater toda aquela espontaneidade, que era lhe era tão peculiar,  saí em busca do celular. Tinha que falar com Everaldo.

Na minha cabeça, mil perguntas se atropelavam para ver qual delas sairia primeiro: “Você está louco? Como pôde fazer uma coisa dessas? Foi buscar sua mãe e nem me avisou? Me deixou dormindo e ela traquinando pela casa? Sozinha? Meu Deus!  E se acontecesse alguma coisa?

Coração já saindo pela boca, antes mesmo que as frases pudessem ser pronunciadas. "E se ela passasse mal? E se acontecesse um acidente? Uma queimadura? Um choque? Sabe o que ela está fazendo agora?”.

Por mais que eu me esforçasse, não conseguia apertar as teclas certas do celular. Tive vontade de estourar o aparelho no chão. E as frases, que continuavam a borbulhar em minha cabeça, aos poucos foram me conduzindo a um nível mínimo de consciência.

Abri os olhos, olhei ao redor. Decidi levantar e caminhar em direção à porta. Ouvi um barulho de ventilador. Descalça e lenta, fui até a sala, driblando as inúmeras caixas de roupas, livros e objetos de decoração espalhadas pelo chão, que insistiam em denunciar o atraso da reforma de casa. "Minha casa. Estou em casa."

Olho aberto, olho fechado, tentava ordenar os pensamentos: “Cadê todo mundo? Saíram e deixaram tudo ligado”. Surpresa, parei perto do sofá, ao ver que o ventilador estava realmente ligado e que havia alguém sentado em frente ao computador. Esfreguei os olhos. Sem óculos, não enxergava direito.

—Dan, você não deveria estar na aula hoje?

—Sim. Estou justamente em aula agora — ajustando os fones de ouvido, ele respondeu e voltou a olhar para a tela.

Sacudi a cabeça de um lado para o outro. Pisquei os olhos várias vezes, procurando esclarecer onde estava a minha razão. Voltei meio sem graça, agora em direção ao banheiro. Em cada passo, senti que os pensamentos retornavam para suas gavetinhas de origem, abrindo espaço livre entre a imaginação e o mundo real.

Fechei os olhos e me deixei envolver pela água morna que escorria do chuveiro. Com um sorriso nos lábios e os batimentos cardíacos agora bem mais serenos, experimentei a doce sensação de ter recebido aquela visita inesperada, que bagunçou os meus sentimentos e ao final, tornou o meu dia bem mais feliz.

 

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